O BODE EMISSÁRIO ERA OFERECIDO AO
DEMÔNIO?
Esta foi a
pergunta que fizeram para mim. O capítulo 16 de Levítico trata sobre o “dia da
expiação”, o “YOM KIPPUR”. Esta era a data mais importante no calendário do
povo de Deus. Era o maior de todos os dias no ano, pois nesse dia era feita a
expiação de pecado de todo o povo. Joel Leitão informa que naquele dia era
feita a expiação: por Arão e os seus filhos; por todo o povo de Israel; e pelo
Tabernáculo e seu mobiliário.[1]
Era observado no dia dez do sétimo mês (Lv 23. 27), e era também chamado de “dia
da santa convocação”. Neste dia eram escolhidos através de um sorteio o bode
expiatório e o emissário. “E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo
Senhor, e a outra pelo bode emissário.” (Lv 16:8). O primeiro era sacrificado e
o segundo levado para ser abandonado no deserto.[2]
Eram quinze animais sacrificados nesse dia.
A expiação
feita com o bode do Senhor consistia
no seguinte ritual: o bode era degolado, o seu sangue era levado para dentro do
véu, no Santo dos Santos, e o sacerdote fazia como com o sangue do novilho. O Sumo-sacerdote
vestido com a roupa sacerdotal aspergia o sangue do animal sobre o
propiciatório e sete vezes com o dedo pelo chão, depois de também colocar o
sangue nas quatro pontas do altar (Lv 16. 15-19).
Após, era
feita a expiação do Santuário e a Tenda da Congregação. Tendo sendo feito esta
parte, o Sumo-Sacerdote se dirigia ao segundo bode. “Mas o bode, sobre que cair
a sorte para ser bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o Senhor, para
fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como bode emissário.” (Lv.
16. 10). Este animal era oferecido ou apresentado vivo perante o Senhor (v.20). Arão colocava as mãos sobre o bode e
confessa os pecados de todo o povo, depois enviava o animal pelas mãos de um
homem escolhido para o deserto, também chamado de terra solitária. A palavra
hebraica utilizada neste texto é “Azazel”, e nesse ponto que reside o cerne da
questão.
Alguns
escritores sustentam a versão de que Azazel era um demônio. Provavelmente
baseado no livro apócrifo de I Enoque e da Cabala judaica. Livros escritos
posteriores e que refletem apenas à tradição judaica. Tal tradição considera
Azazael como chefe dos demônios do deserto. Assim, Azazel seria um ser pessoal,
um espírito, ou o próprio Satanás.[3]
A demonologia de Israel sustenta esta versão de que o animal era oferecido para
que Satanás não atacasse o povo.
No entanto,
esta interpretação possui vários problemas teológicos. Uma vez que desprezam os
outros possíveis significados da palavra Azazel. Segundo a tradição talmúdica,
seria o nome de um local, significando “duro e áspero”, referindo-se a alguma
região montanhosa do deserto; As primeiras traduções do texto hebraico, a
exemplo da Septuaginta, da Vulgata e mesmo da tradução de Símaco, indicam se
tratar do próprio bode em sua função, enquanto “bode emissário”, por ser
enviado ao deserto; De acordo com os estudos etimológicos presentes em léxicos
importantes (Genesius e BDB), a palavra seria uma abstração, tendo o sentido de
“remoção total”[4].
F. F. Bruce
acrescenta a informação de que a expressão também pode ser entendida como “para
o precipício”, e explica que em tempos posteriores, era costume empurrar um
bode vivo num despenhadeiro a 5 ou 6 km de Jerusalém. E de que também há uma
palavra árabe de pronúncia semelhante que significa “lugar árido.”[5]
A narrativa de
que Azazel se trata de um demônio não encontra consenso em todos estudiosos
judeus, uma vez que um dicionário judeu define assim: “Azazel, bode expiatório
ou bode do afastamento.”[6]
O texto sagrado nos deixa evidente que o bode carregava sobre ele todos os
pecados de Israel. “Assim aquele bode levará sobre si todas as iniqüidades
deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto.” (Lv 16.22). O que é
confirmado em toda a Palavra de Deus de se trata de uma tipologia do próprio
Cristo: “...mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. [...] porque
as iniqüidades deles levará sobre si.” (Is 53:6 b, 11). O apóstolo Pedro nos
ensinou esta verdade: “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o
madeiro.” (1 Pe 2:24). E que este lugar ermo se refere ao caráter da Obra de
Cristo em relação ao nosso pecado, como foi profetizado por Miquéias: “lançarás
todos os seus pecados nas profundezas do mar.” (Miquéias 7:19).
Tudo isto para
que se cumprisse a profecia de Salmos 103.12: “Assim como está longe o oriente
do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões.” Dessa forma,
enquanto o bode degolado aponta para Cristo sendo crucificado por nossos
pecados, o bode emissário sendo levado ao deserto aponta para Cristo levando
nossos pecados sobre si. De forma nenhuma o diabo, ou algum demônio poderia
levar nossos pecados sobre ele ou ter parte na Obra expiatória de Deus pelos pecados dos
homens.
Pr. Flávio
Alves
[1]
MELO, Joel Leitão de, 1909. Sombras, tipos e mistérios da Bíblia. Rio de Janeiro,
CPAD, 1989. Pág. 76-18.
[2]
CHAMPLIN, Russell Norman, 1933. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por
versículo. Vol.1. 2ª Ed. São Paulo, Hagnos, 2001. Pág. 537.
[3] CHAMPLIN,
Russell Norman, 1933. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por
versículo. Vol.6. 2ª Ed. São Paulo, Hagnos, 2001. Pág. 3872.
[4] RUPPENTHAL,
Willibaldo Neto. AS INTERPRETAÇÕES DE AZAZEL EM LEVÍTICO 16. Revista Ensaios
Teológicos. Vol. 2, Nº 01, 2016.
[5]
COMENTÁRIO BÍBLICO NVI: Antigo e Novo Testamento. Editor geral F.F. Bruce.
Tradução: Valdemar Kroker. São Paulo, Editora Vida, 2008. Pág. 281.
[6]
MELO, ibidem. Pág. 78.